Afinal, quem sou eu?

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Sabe aquelas questões que são grandes mistérios da humanidade? Do tipo, qual o sentido da vida e qual o propósito da nossa existência. Pois é. Eu Maior, documentário sobre autoconhecimento e busca da felicidade, procura investigar esses e outros temas a partir de depoimentos muito interessantes de 30 brasileiros com perfis bem diferentes.

Entre os entrevistados estão o filósofo Sergio Cortellla, a monja budista Coen, o cientista Marcelo Gleiser, o líder humanitário Prem Baba, o escritor Rubem Alves, e outros nomes. É interessante perceber como cada um tem um ponto de vista, com opiniões moldadas pela formação e experiência individual.

Para uns a felicidade significa ter posses. Para outros é definida como um momento, um estado de espírito, fazer o que gosta ou estar com quem se ama. A questão é: como faço para alcançar a felicidade e satisfação pessoal? Alguns encontram a resposta em uma vocação, como na pintura ou na música. Outras vezes, isso acontece por meio de um estilo de vida. Ou ainda a aventura de escalar uma montanha e surfar nas maiores ondas do mundo podem representar essa autodescoberta.

O problema é que muitas pessoas colocam a felicidade como uma meta futura. Quando, na realidade, o segredo está em alcançá-la durante a trajetória. É como vamos trilhar o nosso caminho e o que levaremos disso tudo. O filme também nos lembra que ninguém é feliz o tempo todo. Trata-se de uma situação passageira, que do mesmo modo pode dar espaço à tristeza. E são nas crises que surgem as oportunidades de superação e aprendizado.

Como resultado, o filme nos provoca uma intensa reflexão. Como as discussões levantadas não apresentam conclusões concretas, o sentimento que fica é de mais curiosidade, dúvidas e inquietações. Na verdade, as respostas estão dentro de cada um. É um processo de autoconhecimento que nos leva a pensar: afinal, quem sou eu?

Confira alguns depoimentos dos entrevistados:

marcelo

 

“A gente nunca vai poder conhecer tudo sobre o mundo. A gente tem que viver com essa sabedoria, que a gente nunca vai poder ter uma visão completa do mundo. O que não nos torna menos humanos. Na verdade, nos torna mais humanos e menos deuses”, Marcelo Gleiser (cientista).

 

carlos burle

 

“Eu gosto de desafios. De uma maneira louca, você morre. De uma maneira preparada, você aprende”, Carlos Burle (surfista).

 

 

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“Eu precisei ir até a montanha para poder me encontrar, me ver diante de um espelho”, Waldemar Niclevicz (alpinista).

 

 

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“A gente não nasce pronto e vai se gastando. A gente nasce não pronto e vai se fazendo”, Sérgio Cortella (filósofo).

 

 

marina

 

“A felicidade é original para cada um, porque nós somos originais. Nós somos únicos, ainda que iguais. Acho que a beleza da condição humana é essa possibilidade de você ser completamente original e completamente igual”, Marina Silva (ambientalista).

 

kaká

 

“A felicidade não exige dinheiro. A felicidade não exige status para se manifestar. A felicidade não exige um curso de MBA e ela não exige nenhuma formação. Só a sintonia. Por isso a minha resposta é óbvia. A felicidade é um estado de espírito”, Kaká Werá (educador).

 

roberto

 

“A tristeza é uma emoção natural e importante, porque ela nos ajuda a vivenciar o luto, deixar morrer para poder renascer. O problema é que todo mundo quer renascer, mas ninguém quer morrer”, Roberto Crema (psicólogo).

 

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“Quando a gente abre a mão, nela cabe todo o mundo. Quando nós seguramos alguma coisa, nós nos limitamos. E às vezes, nós seguramos a dor, o sofrimento”, Coen (monja).

 

 

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“Acho que o sofrimento maior do ser humano se deve ao fato de que ele nasce sem manual de instruções. Por não saber como ele mesmo funciona, ele sofre. A causa do sofrimento, a causa do mal, é a ignorância”, Ricardo Lindemann (teólogo).

 

O documentário de 2013 é uma iniciativa da Associação Dobem, ONG que dissemina conhecimento voltado para o desenvolvimento humano. Um livro, que aprofundará o assunto, também deve ser lançado. A boa notícia é que a íntegra do filme está disponível no Youtube.

 

 

Por Juliana Helpe

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Pelo olhar de Tião

 

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Fonte: Imovision

Em O Sal da Terra, Sebastião Salgado experimenta ser o alvo das lentes, difícil tarefa para quem está acostumado a ter a câmera nas mãos. O documentário conta a trajetória desse renomado fotógrafo, mostrando um pouco dos bastidores do seu trabalho e algumas das suas principais obras.

A direção é do alemão Wim Wenders, considerado um fã de Sebastião, e do brasileiro Juliano Ribeiro Salgado, filho do fotógrafo. Se por um lado a proximidade dos diretores com o protagonista enriquece a narrativa, por outro, é verdade que torna o tom do filme chapa branca.

Em suas diversas expedições ao redor do mundo, Sebastião registrou civilizações, trabalhadores, o meio ambiente e as diversas espécies animais, divergindo entre as faces da pobreza, da miséria e da desesperança, até a beleza da natureza inexplorada. Independente da temática, uma característica é comum em seu trabalho: a profundidade e intensidade das fotos que nos contam histórias.

Sempre em preto e branco, as imagens nos despertam forte impacto e transmitem emoção. Os olhares e expressões das personagens revelam muito. Ao observar um garimpeiro em Serra Pelada, por exemplo, é possível deduzir as difíceis condições de trabalho enfrentadas por ele e, ao mesmo tempo, o seu sentimento de ambição na busca pelo ouro.

No documentário, Sebastião afirma que a visão peculiar de cada fotógrafo é resultado direto da sua origem e experiências. “Tião nunca parou em lugar nenhum”, conta o seu pai. Nascido em Aimorés, Minas Gerais, o fotógrafo cresceu na fazenda da família, com mais sete irmãs. Casou-se com Lélia, companheira e incentivadora do seu trabalho. Formou-se em economia e militou no movimento de esquerda durante a ditadura militar.

Em 1969, vai morar na França e trabalha na Organização Internacional do Café. Lélia estudava arquitetura e foi responsável por comprar a câmera que seria muito usada por Sebastião. Frequentemente, ele participava de projetos de desenvolvimento na África e aproveitava para fazer os registros das viagens. É quando decide abandonar a profissão de economista para se dedicar exclusivamente à fotografia.

O Sal da Terra mostra os diferentes projetos fotográficos desenvolvidos ao longo da carreira de Sebastião: Outras Américas (1977-1984); Sahel: o homem em agonia (1984-1986); Trabalhadores (1986-1991); Êxodo (1993-1999); e Gênesis (2004-2013).

Durante Êxodo, Sebastião passou a questionar com mais intensidade o seu trabalho como fotógrafo social e seu papel de testemunha. Retratar os refugiados da Índia, Vietnã, Filipinas, Iraque, entre outros, foi uma experiência que o mudou completamente. Em Ruanda, acompanhou a guerra civil e esteve em contato com o lado mais terrível do homem. “Quando eu saí dali, eu estava doente, muito doente. Meu corpo adoeceu. Não era uma doença infecciosa, mas a minha alma estava doente”, diz.

O documentário tem um desfecho otimista ao retratar o resultado bem sucedido do Instituto Terra. A organização criada por Sebastião e Lélia tem o objetivo de recuperar as terras degradadas na região do Vale do Rio Doce. Neste período, o fotógrafo é inspirado a iniciar uma nova expedição, Gênesis, projeto que considera uma homenagem ao planeta. Ele visita locais praticamente intocados desde a sua origem, como Galápagos, a tribo indígena Zo’e no Pará e a comunidade dos nenets na Sibéria.

A partir de um olhar peculiar, é interessante perceber como Sebastião demostra extremo respeito, contemplação e comunhão com aquilo que registra. A fotografia e a vida de Tião se fundem em uma trajetória única. A mensagem que fica é de que na destruição, seja ela qual for, ainda há esperança de um recomeço.

Por Juliana Helpe