Resoluções de ano novo

​Não há como negar que foi um ano difícil.  Difícil para a economia, para a política e para quem acorda cedo todos os dias. Afinal, qual ano não é?  Enfrentamos desafios diários. 

Ao fazer um balanço, vejo o quanto cresci e ao mesmo tempo me frustro por não ter cumprido todas as expectativas. Desta vez vou evitar fazer listas, pular ondas ou me preocupar com a cor da roupa. Antes de tudo, a meta será compreender minha confusão interior. Reavaliar meus reais objetivos. Quais são minhas paixões?  O que me motiva? O que espero do futuro?

Não sei muito bem. Carrego várias incertezas. Mas quem não anda meio perdido? Na dúvida tenho seguido pelo caminho do meio. Ainda preciso aprender que sou livre e que posso escolher qualquer caminho. Aceitar que nessa jornada eu posso arriscar e fracassar. Só  assim tentarei acertar e que o acertar pode ser relativo.

Sinto fome de muita coisa. Porém,  sem me suprir de boas energias não será possível chegar a lugar algum. Primeiro, preciso me alimentar de amor, liberdade, autoconfiança, aprendizado. Até deixar transbordar. Preciso me cercar de pessoas que queiram se deixar transbordar. 

Sei que só assim, quando eu me renovar aqui dentro, o mundo passará a fazer mais sentido aí fora. Afinal, independentemente das resoluções para o ano novo, as principais mudanças que desejamos acontecem quando a gente mesmo muda.

Por Juliana Helpe

Hora, lugar e disposição

Sempre acreditei que tudo na vida é uma questão de hora certa e lugar certo. Se algo está reservado a você, o momento simplesmente acontece. Conforme deve ser.

A essa fórmula, adiciono a disposição. Porque quando há vontade para que os objetivos e sonhos se concretizem, grande parte do caminho está ganho. Apesar do lugar e da hora serem adversos, corações dispostos podem tornar qualquer situação possível.

A pergunta é: os nossos corações estão dispostos?

 

Por Juliana Helpe

O futuro de Edu

Sento no chão para brincar de massinha com Edu. O menino tem 10 anos e veio de longe. Mal posso imaginar pelo que já deve ter passado. Deixou o seu país, em outro continente, para chegar até o Brasil. Mora temporariamente com outros refugiados em um centro de acolhida na zona leste de São Paulo. Distante do verdadeiro lar, a família tenta reconstruir uma vida por aqui.

Enquanto brincamos, pergunto ao garoto que profissão sonha em seguir. “Quero ser bandido, tia”, responde com a voz baixa. “Bandido?”, questiono espantada. Tento convencê-lo de que aquela não era uma boa opção. Ele fica em silêncio e depois se mantém entretido com um brinquedo qualquer.

No caminho de volta para o conforto da minha casa, não consigo parar de pensar qual futuro terá o menino. É incrível como os conflitos armados e a violência geram uma série de problemas que vão impactar na vida dele. A necessidade do deslocamento, a falta de moradia, fome, desemprego.

Espero que Edu esteja enganado e nunca desista de lutar por oportunidades. Assim como os demais refugiados, ele só precisa ser acolhido de maneira digna. Sempre há espaço para a interação entre os povos. A humanidade é feita dela. Eu torço por um futuro brilhante para o Edu.

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Por Juliana Helpe

Cacho fora da caixa

– Me deixa prender seu cabelo.
– Não quero! Dói, mãe.
– Deixa disso.
Tiro a xuxinha assim que escapo do olhar dela.

– Coloca assim, atrás da orelha, que nem fulana.
– Me incomoda.
– Mas é volumoso, tá feio!
Coloco atrás da orelha, ele escapa. Tento mais uma vez.
Não dá. Esqueço e sigo em frente.

– O que você fez? Prende isso!
Prendo isso.

– E se você fizesse uma progressiva? Escova de chocolate?
Coisa leve, ele vai ficar no lugar.
– É uma boa ideia…
Eu tento. Passo mal, mas ele fica no lugar.

– E esse “matinho”?
– Tô deixando a franja crescer.
Não, não estou. Ele só quer crescer, sair do lugar.

– Que tal umas luzes também? Tá na moda.
– Luzes, então.
Estou igual. Dá pra ver que sou igual?

– Você tem uma beleza exótica.
– Exótica?
Mas estou igual a todo mundo. Não estou?

– Nossa! Tá lindo assim. Longo, californianas.
– Jura? Obrigada!
É… Só demoro duas horas por dia para deixar assim.
Amanhã vou levantar bem cedinho… Mais uma vez.

– Tô cansada. Quero dormir, mas preciso arrumar meu…
– Para com isso! Corta! Deixa esse liso para lá!
– Mas não vou ficar igual!
– Quem liga?
Quem liga? Quem liga… QUEM?

______________

– Oi! Você tá bagunçada. Por quê?
– Ah… Cortei o cabelo e não fiz chapinha. Acho que vou
usar assim. Não ficou bom?
– Não gostei.
– Tá.
Que merda! Se nem quem me ama…

– Nossa, até que estou me acostumando.
– Eu também.
Acordei bem hoje. Me sinto ok. Quem liga? Eu ligo.

– Que cabelo lindo. Deve dá muito trabalho.
– Na verdade, não.
Difícil é me justificar.

– Me sinto de fora, às vezes.
– Mas você quer mudar?
– Não sei. Eu gosto assim, mas…
Por que mesmo quero mudar?

– Então perguntei “o que tem de errado com ela?” e
eles disseram “ah, sabe… ela não é igual a gente! É diferente!”. Acredita?
– Huum…
Você é diferente, eles disseram. É o argumento.

______________

– Oi.
– Oi.
– Você é diferente. Sou um espelho, mas consigo ver além do
seu reflexo. Não é o cabelo, tá?
– Eu sei.
– E aí? Vamos mudar? Tentar ser igual?
– Não. Sou diferente. Sou eu.

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Por Gabriela Leocádio