Cacho fora da caixa

– Me deixa prender seu cabelo.
– Não quero! Dói, mãe.
– Deixa disso.
Tiro a xuxinha assim que escapo do olhar dela.

– Coloca assim, atrás da orelha, que nem fulana.
– Me incomoda.
– Mas é volumoso, tá feio!
Coloco atrás da orelha, ele escapa. Tento mais uma vez.
Não dá. Esqueço e sigo em frente.

– O que você fez? Prende isso!
Prendo isso.

– E se você fizesse uma progressiva? Escova de chocolate?
Coisa leve, ele vai ficar no lugar.
– É uma boa ideia…
Eu tento. Passo mal, mas ele fica no lugar.

– E esse “matinho”?
– Tô deixando a franja crescer.
Não, não estou. Ele só quer crescer, sair do lugar.

– Que tal umas luzes também? Tá na moda.
– Luzes, então.
Estou igual. Dá pra ver que sou igual?

– Você tem uma beleza exótica.
– Exótica?
Mas estou igual a todo mundo. Não estou?

– Nossa! Tá lindo assim. Longo, californianas.
– Jura? Obrigada!
É… Só demoro duas horas por dia para deixar assim.
Amanhã vou levantar bem cedinho… Mais uma vez.

– Tô cansada. Quero dormir, mas preciso arrumar meu…
– Para com isso! Corta! Deixa esse liso para lá!
– Mas não vou ficar igual!
– Quem liga?
Quem liga? Quem liga… QUEM?

______________

– Oi! Você tá bagunçada. Por quê?
– Ah… Cortei o cabelo e não fiz chapinha. Acho que vou
usar assim. Não ficou bom?
– Não gostei.
– Tá.
Que merda! Se nem quem me ama…

– Nossa, até que estou me acostumando.
– Eu também.
Acordei bem hoje. Me sinto ok. Quem liga? Eu ligo.

– Que cabelo lindo. Deve dá muito trabalho.
– Na verdade, não.
Difícil é me justificar.

– Me sinto de fora, às vezes.
– Mas você quer mudar?
– Não sei. Eu gosto assim, mas…
Por que mesmo quero mudar?

– Então perguntei “o que tem de errado com ela?” e
eles disseram “ah, sabe… ela não é igual a gente! É diferente!”. Acredita?
– Huum…
Você é diferente, eles disseram. É o argumento.

______________

– Oi.
– Oi.
– Você é diferente. Sou um espelho, mas consigo ver além do
seu reflexo. Não é o cabelo, tá?
– Eu sei.
– E aí? Vamos mudar? Tentar ser igual?
– Não. Sou diferente. Sou eu.

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Por Gabriela Leocádio

Opostos, mas nem tanto

Existe um conhecido ditado que diz: os opostos se atraem. Será mesmo? Claro, as diferenças entre as pessoas são positivas e representam uma troca de conhecimentos e experiências. Afinal, seria muito chato estar com alguém exatamente igual a você. Mas, há certo limite. E quando as diferenças de valores, personalidades, gostos e opiniões são extremas? A convivência fica complicada…

É tão bom descobrir que alguém gosta das mesmas músicas que você, tem as mesmas posições políticas, conhece os seus autores e os diretores de cinema preferidos. Os interesses em comum são uma forma de nos aproximar e dar início a uma conversa.

Tudo bem se a pessoa não é fã das mesmas bandas que você. Pode até ser uma oportunidade de te apresentar algo novo. Entretanto, quando o seu estilo é totalmente rock and roll e o outro sugere um sertanejo… não dá, né. Um adora curtir balada, o outro é caseiro. Um sonha em constituir família, o outro planeja viajar pelo mundo. Um é do estilo urbano, a exemplo de Robin, o outro tem um jeito hippie, assim como Gael.

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No início, pode até parecer divertido. No longo prazo, torna-se desgastante administrar as divergências. Na realidade, procuramos pessoas com as quais nos identificamos. Aquele companheiro para caminhar na mesma direção. Apesar das diferenças, poder compartilhar as mesmas prioridades. Eduardo e Mônica da vida moderna, com restrições.

 

Por Juliana Helpe

A poesia de A.

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Foto: Juliana Helpe

Nunca gostei de poesia. Um monte de palavras soltas, desconexas, desligadas. Tentei ler as bonitas e as grosseiras. Fiz um esforço para amar o conjunto, para entender as estrofes, para sentir os versos. Pessoa, Lispector, Path. Tudo em vão. Até conhecer você.

É tão simples quando a escrita é sua. As palavras saltam direto para os meus pensamentos. Dançam como nuvens no céu azul. Brilham como estrelas acima de mim.

E quando você lê em voz alta? Ah, quando você lê… Eu gosto do jeito como você fala. Das palavras usadas, do som da sua voz, das ideias repentinas, das expressões contidas na entonação. É um jeito diferente. Me transporto para um mundo em que o vento vem da tua boca, me guiando como uma bússola pelo caminho dos significados ocultos.

Mas não sei bem se são os versos que me encantam. Tudo soa incrível vindo de você. Quem sabe tua pessoa seja a própria poesia.

Talvez eu ame poesia agora.
Talvez…

 

Por Gabriela Leocádio

Trocas

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Foto: Juliana Helpe

Troco um dia por uma hora encarando o mar.
Troco um dia por uma hora assistindo as nuvens.
Troco um dia por uma hora rodeada de grama verde.
Troco um dia por uma hora sentindo o vento no meu cabelo.
Troco um dia por uma hora de céu estrelado acima de mim.
Troco um dia por uma hora deitada na rede.
Troco um dia por uma hora de videoclipes rodados na mente.
Troco um dia por uma hora de palavras se juntando.
Troco um dia por uma hora despretensiosa acompanhando as luzes da megalópole.
Troco um dia por uma hora de chuva tocando minhas bochechas.
Troco um dia por uma hora de papo furado no café da esquina.
Troco um dia por uma hora saboreando um tablito.
Troco um dia por uma hora de almoço com a minha avó.
Troco um dia por uma hora daquele livro gasto.
Troco um dia por uma hora de abraços apertados.
Troco um dia por uma hora de “eu te amo” ao acordar.
Troco um dia por uma hora dançando como se o mundo fosse acabar.
Troco um dia por uma hora aliviando minhas neuras.
Troco um dia por uma hora chorando meu alívio.
Troco um dia por uma hora de gargalhada espontânea.
Troco um dia por uma hora vencendo meus medos.
Troco um dia por uma hora de felicidade.

 

Por Gabriela Leocádio

Paixão de 105 dias

Origens, culturas e pensamentos tão diferentes. Parece que a distância que nos separa vai além dos 11 mil quilômetros do mapa. Na personalidade, tanto em comum. Muitas vezes, nem mesmo as palavras eram necessárias.

O fim dessa história sempre foi certo. Seria passageiro. Teria que ser. Mas, depois de estabelecer laços, nos afastar se tornou uma árdua tarefa. Constante batalha entre querer estar perto e achar melhor ficar longe. Então, que seja só mais uma vez, e mais uma vez, e mais uma vez… Enquanto o tempo permitir.

Na hora da despedida, sabíamos que nossos caminhos jamais voltariam a se cruzar. Foi paixão que terminou depois de 105 dias. Espero, ao menos, ser uma boa lembrança, para que você possa colocar as memórias na mala e carregá-las contigo.

Of course, we had good times.

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Por Juliana Helpe

Carnaval

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Foto: Juliana Helpe

Vale colocar a fantasia e ocultar o que carrega por dentro. Estampar um sorriso no rosto, dançar, cantar, brincar, pular e achar graça. Deixar fluir o sentimento libertador. Transformar-se em super-herói, rei, pirata ou bailarina. Quem irá se lembrar amanhã? É como assumir uma nova identidade. A identidade do carnaval. E quando a festa termina, é a antiga vida que volta ao normal.

 

Por Juliana Helpe